Tecnologia por quê, mesmo?

Enviado por efeefe, seg, 04/14/2014 - 22:03

A edição 97 da revista A Rede vem com um artigo meu na seção raitéqui. Publico abaixo a versão original do artigo, um pouquinho mais extensa. A revista traz também uma matéria sobre internet das coisas com algumas citações a provocações que eu fiz em conversas com a Áurea.

Como grande parte dos desenvolvimentos contemporâneos, as tecnologias da informação chegam em diferentes ritmos e disposições a grupos sociais diversos. Para alguns, parecem significar a libertação das amarras de uma sociedade pós-industrial cuja nova configuração é fragmentada e baseada nos fluxos em múltiplas direções. Estes privilegiados acreditam que, a partir do uso instrumental das novas tecnologias, podem chegar a criar espaços de liberdade e autonomia, ao mesmo tempo em que valorizam novas formas de sociabilidade e de criação do comum. Para eles, o horizonte é repleto de oportunidades inovadoras, com a promessa de mercados à espera de boas ideias e que ao mesmo tempo produzem conhecimento que é generosamente oferecido à sociedade. Para outros, a chamada era da informação não passa de um conjunto de expectativas relativamente nebulosas que usualmente são traduzidas somente no incremento de suas oportunidades de consumo (preferencialmente com um simultâneo aumento em sua capacidade de endividamento). Com frequência, nem isso acontece: a tecnologia costuma ser usada somente como instrumento de controle, monitoramento e contenção de desvios.

O complexo que faz girar a internet comercial trata estes dois extremos da mesma forma: como combustível indiferenciado de uma máquina baseada na exploração do valor das relações sociais, inclusive as comunicações particulares que acreditamos serem privativas. Para essa articulação entre as corporações de TI, a indústria da publicidade e do entretenimento (que compõem uma só área integrada, não esqueçam) e, implicitamente, o setor militar e de "inteligência", qualquer uso das tecnologias que proponha transformações profundas na sociedade deve ser neutralizado o mais rapidamente possível.

Esse contexto é cada vez mais evidente em uma época que já testemunhou manifestações de rua - em grande parte articuladas pela internet mas posteriormente instrumentalizadas pela mídia corporativa -; revelações de nomes como Julian Assange e Edward Snowden que sugerem a ampla utilização de redes sociais para informar instituições dedicadas à espionagem e controle de informação em nível internacional; além das incessantes tentativas de controlar as liberdades fundamentais à internet como instrumento de comunicação humana.

No mês passado, um post de Anahuac de Paula Gil [http://www.anahuac.eu/?p=335] levantou uma discussão importante a respeito do possível esvaziamento do movimento software livre brasileiro. Ao longo da última década e meia, o país alcançou destaque internacional decorrente do apoio institucional ao software livre e à cultura livre. O tempo mostrou que grande parte desse apoio era mera retórica ou oportunismo midiático, mas a comunidade de usuários e desenvolvedores tinha de fato potencial, entre outros motivos por conta de sua articulação com movimentos sociais cuja referência básica não era o mercado. Entretanto, as diversas camadas de ferramentas que facilitam ao máximo os relacionamentos, a publicação na web e o empreendedorismo tecnológico têm como consequência a neutralização desse potencial. À medida em que menos pessoas dedicam-se a aprender e dar forma a novas ferramentas de comunicação, e ao mesmo tempo surgem oportunidades rápidas de prestar serviços a um mercado em crescimento, é supostamente natural que haja menos desenvolvimento de tecnologias realmente transformadoras. Quando alguns dos nossos maiores talentos dedicam seu tempo a preencher espaços do mercado comercial, a sociedade tem muito a perder.

Tudo isso aponta para a necessidade de repensar as bases nas quais se situam os projetos e programas de inclusão digital. Historicamente, essas iniciativas partiam de um princípio de compensação. Ou seja, entendiam que as novas tecnologias de informação oferecem oportunidades de inclusão, principalmente por conta da articulação de novas habilidades de comunicação pessoal com um tipo de sociabilidade que poderia subverter hierarquias. Mas essas oportunidades chegavam à sociedade de maneira desequilibrada. Os projetos de inclusão digital propunham-se, então, a oferecer infraestrutura tecnológica àquelas camadas da população que não tinham acesso a tal infraestrutura por seus próprios meios, de maneira a equilibrar a equação. Essa é uma visão que no mínimo deve ser interpretada como conservadora, porque vê a sociedade como estável em torno de construções determinadas - o trabalho, a escola, a comunidade local, a família - e no topo destas construções o digital surgiria como simples aspecto adicional. Ou seja, as pessoas precisariam adaptar-se às novas possibilidades criadas pelas tecnologias para continuarem ocupando o mesmo papel na sociedade. Seriam, assim, mais vítimas do que atores da revolução digital. Entretanto, um dos maiores potenciais da comunicação digital reside justamente na capacidade de engendrar arranjos sociais que escapam a estas configurações conservadoras. Não se trata mais de garantir a manutenção de determinado papel social, e sim de criar novos e inovadores papeis.

Quando surgiram os telecentros, uma de suas características mais relevantes não era o fato de oferecerem mero acesso a computadores ou à internet, mas fundamentalmente sua capacidade de atrair cidadãos a utilizarem novos formatos de espaços públicos. Não somente como transeuntes - aqueles que circulam por um lugar -, mas como membros da sociedade que ocupavam aqueles espaços. E ocupavam espaços cuja função ainda não estava totalmente determinada. Ao contrário de outros espaços públicos - a escola, a biblioteca, a repartição, a praça -, a função objetiva do telecentro não estava clara. Era espaço de formação para o mercado, mas também era espaço de sociabilidade, de formação geral, de experimentação e aprendizado sobre artes. E essa indeterminação pode ter sido justamente o que fomentou o alto nível de inovação que estes espaços possibilitaram ao longo da última década.

O fato de que mais e mais iniciativas de inclusão digital tenham aberto mão dos espaços compartilhados em favor de uma lógica - consumista e individualista, a meu ver - do acesso doméstico à internet parece ser mais um indício negativo das tendências atuais. Somando-se ao alerta feito por Anahuac e à rendição quase total às redes sociais corporativas, o quadro é bastante obscuro. Como fazer para escapar a essas armadilhas?

O telecentro precisa ser repensado. Já passou-se quase uma década e meia desde que eles se estabeleceram como modelo [Ver http://blog.redelabs.org/blog/para-que-serve-um-telecentro]. Hoje em dia, pensar em laboratórios experimentais comunitários enquanto espaços em branco, espaços nos quais novas formas de sociabilidade podem emergir e se desenvolver, parece ser o mínimo. Hacklabs e Makerspaces sugerem novos caminhos, nos quais a apropriação crítica de tecnologias torna-se mais importante do que o mero acesso à rede. O importante é perceber que, se queremos espaços que proponham transformação social efetiva, não podemos nos contentar com uma lógica de ocupação de vagas, de estatísticas de atendimento ou mesmo de mero empreendedorismo comercial. Precisamos pensar nos futuros que queremos criar, e dedicar nosso tempo a criá-los. Voltar a pensar na importância de insistir no livre, no aberto e na cultura ao mesmo tempo questionadora e acolhedora que envolve esses adjetivos.


Felipe Fonseca é coordenador do núcleo Ubalab [http://ubalab.org]. Foi um dos fundadores da rede MetaReciclagem [http://rede.metareciclagem.org]. Vive em Ubatuba/SP, onde organiza o Tropixel [http://tropixel.ubalab.org] e leciona na Escola Técnica Municipal Tancredo de Almeida Neves. Acabou de terminar sua dissertação de mestrado pelo Labjor/Unicamp, focada nos laboratórios experimentais em rede.

Ensaio Tropixel #1

Enviado por efeefe, sab, 04/05/2014 - 23:34

A primeira edição do Ensaio Tropixel começou hoje em Ubatuba. Na verdade, já estávamos trabalhando e preparando algumas coisas ao longo da semana passada. Os Ensaios Tropixel propõem-se a estender e aprofundar questões que surgiram durante a realização do Festival Tropixel, em outubro de 2013, além de começar a preparar o terreno para a próxima edição do Festival, que esperamos organizar no segundo semestre deste ano. Para esta primeira edição, aproximamos dois eixos: mapeamento comunitário e monitoramento ambiental. A ideia é articular o vocabulário das cartografias digitais com as diversas possibilidades que surgem do maior acesso a sensores digitais interconectados.

Quarta-feira, Guima-san chegou de São Paulo para oferecer uma oficina de hardware livre e sensores a alunos do Curso de Informática na Escola Técnica Municipal Tancredo Neves. O tempo foi curto, mas deu para ter alguma ideia das possibilidades. No dia seguinte, reunimos algumas pessoas de Ubatuba que trabalham com tecnologia e educação na Biblioteca Municipal, onde fica o antigo telecentro GESAC - e que se tudo der certo vai transformar-se no Espaço TEC de Ubatuba - para começar a testar um sensor de Oxigênio Dissolvido e fazer as primeiras experiências no sentido de construir sensores de qualidade de água para os rios de Ubatuba. Guima dedicou algum tempo a ajustar o sistema e encontrar maneiras de registrar os dados gerados. É necessário acrescentar que temos consciência de que o Oxigênio Dissolvido é somente uma entre diversas mensurações possíveis para verificar a qualidade de água. É um dado que varia a partir de diversas condições, e portanto não é uma medida definitiva. Mas na proposta de primeiro passo em um laboratório que dedique tempo, recursos e talento a esse tipo de desenvolvimento, parece-nos um começo apropriado. No momento, não estamos buscando um índice objetivo, e sim a possibilidade de comparar diferentes pontos do rio e/ou diferentes momentos da água que corre por ele.

Hoje à tarde, como dizia, começamos com a programação mais intensiva. Esta edição do Ensaio Tropixel é uma parceria com o Labmovel, coordenado por Lucas Bambozzi e Gisela Domschke. A convite do Labmovel, o artista Fernando Velázquez veio a Ubatuba trazendo um drone Phantom 2. A partir de conversas que aconteceram durante o Festival Tropixel, voltamos a atenção da oficina ao Rio Acaraú, que vem desde o pé da serra, Sesmaria e Estufa II, depois atravessa a Rio-Santos e corta o Itaguá até chegar ao mar. A ideia hoje era juntarmos uma reflexão com referência na cartografia - voltar os olhos para o chão, as curvas do rio e as maneiras de chegar até ele - com a possibilidade de gerar dados a partir de um protótipo de sensor.

Reunimos os participantes no Tancredo para uma primeira conversa, e depois fomos em busca do rio. Alguns participantes carregavam smartphones com aplicativos de rastreamento via GPS, com a missão de registrar os trajetos com imagens e anotações. Paramos primeiramente no ponto onde o rio passa por debaixo da Rio-Santos, perto do trevo da Praia Grande. Fizemos ali algumas medições com o sensor e imagens aéreas com o drone. Em seguida, paramos em um ponto entre Itaguá e Tenório que tem outro acesso ao rio. Por fim, paramos na foz do Acaraú no canto direito do Itaguá, ao lado do morro.

Encerramos o dia com trilhas de GPS, dados de testes de oxigênio dissolvido na água e imagens aéreas. Amanhã, domingo, das 10h às 13h, vamos novamente nos reunir para agregar estes dados e pensar em como dar sentido a eles. O encontro está marcado para o Terminal Marítimo Comodoro Magalhães, no canto direito do Itaguá (pouco depois da Capitão Felipe). A programação é aberta a todos os interessados.

Acompanhe também:

SIMAP-LN

Enviado por efeefe, sex, 03/21/2014 - 16:46

Deu no Litoral Sustentável:

Um sistema online desenvolvido no Centro de Inovação, Empreendedorismo e Tecnologia (Cietec), instituição ligada à USP, irá produzir um banco de dados georreferenciados sobre os aspectos ambientais do Litoral Norte do Estado de São Paulo. Criado pela empresa SALT Ambiental, incubada no Cietec, o Sistema Integrado de Monitoramento Ambiental Participativo do Litoral Norte (SIMAP-LN) permite que qualquer pessoa com acesso a internet tenha acesso aos dados disponíveis e se cadastre para contribuir com novas observações. O SIMAP-LN reúne informações sobre praias, pontos de mergulho, avistamento de animais marinhos e crimes ambientais ocorridos na região.

O site está disponível aqui. Por enquanto tem pouca informação, mas pelo que entendi eles esperam receber contribuições de forma colaborativa. Também não vi nenhuma informação técnica: não entendi se o sistema está baseado em alguma tecnologia que já existia, se faz uso de tecnologias livres ou se está integrado a outras iniciativas. Nem de que forma se prevê sua sustentação futura. É uma iniciativa interessante, mas espero que não seja mais um daqueles projetos feitos por instituições que não estão enraizadas no cenário local e que depois de algum tempo simplesmente desaparecem.

Cursos Pronatec em Ubatuba

Enviado por efeefe, qua, 03/12/2014 - 16:32

Repassando comunicado da Prefeitura:

Pronatec abre inscrições para cursos gratuitos em Ubatuba
Objetivo do programa é ampliar oferta de cursos de educação profissional e tecnológica
As inscrições para cursos gratuitos de formação profissional oferecidos pelo Programa Nacional de Acesso ao Ensino Técnico e Emprego (Pronatec) em Ubatuba encontram-se abertas.
Podem se inscrever trabalhadores, inclusive agricultores familiares, silvicultores, aquicultores, extrativistas e pescadores; povos indígenas, comunidades quilombolas e outras comunidades tradicionais; pessoas com deficiência; pessoas que recebem benefícios dos programas federais de transferência de renda; estudantes matriculados no ensino médio em escolas públicas, inclusive na Educação de Jovens e Adultos (EJA); e adolescentes e jovens em cumprimento de medidas socioeducativas.
Confira no fim da matéria os detalhes sobre cada curso e sobre como fazer a inscrição.
Pronatec
O Pronatec foi criado pelo em 2011 com o objetivo de ampliar a oferta de cursos de educação profissional e tecnológica. Segundo o Ministério da Educação, desde a criação, o programa atendeu a 2,5 milhões de brasileiros.
Até 2014, a meta é oferecer cursos técnicos e de formação inicial e continuada a 8 milhões de estudantes e trabalhadores. Em Ubatuba, são 30 vagas oferecidas em cada módulo.
Os cursos são gratuitos, ministrados pela equipe do Instituto Técnico Federal em diversas áreas tecnológicas: ambiente e saúde, produção cultural e design, gestão e negócios, informação e comunicação entre outras. O material didático também é gratuito e é fornecida ajuda estudantil. Conheça mais sobre o Pronatec: http://pronatec.mec.gov.br/
Inscrições
Os interessados devem dirigir-se à unidade demandante para fazer a pré-inscrição até o dia 19 de março. As vagas são preenchidas respeitando o público prioritário (descrito acima), os pré-requisitos de cada curso e a ordem de chegada dos interessados.

É obrigatória a apresentação dos seguintes documentos:
• RG original e cópia simples (não pode ser carteira de motorista);
• CPF original e cópia simples (caso o número conste no RG não é necessário apresentá-lo);
• Comprovante de escolaridade – certificado de conclusão de curso, histórico escolar ou declaração de escolaridade original e cópia simples, conforme pré-requisito do curso;
• Comprovante de conta bancária no nome do candidato.

Confira abaixo os cursos oferecidos em Ubatuba:
Os cursos têm início em 7 de abril, com aulas teóricas e práticas às segundas, terças e quartas-feiras, das 18:30 horas às 22:30 horas.

EIXO TECNOLÓGICO: Gestão e Negócios / Auxiliar de Recursos Humanos
Executa rotinas de processos administrativos do setor de Recursos Humanos de uma empresa. Realiza atividades de apoio ao planejamento, execução, avaliação e controle dos processos de recrutamento e seleção, treinamento e desenvolvimento, avaliação de desenvolvimento, avaliação de desempenho, progressão funcional, cargos, salários e benefícios.
Escolaridade: Ensino Médio Incompleto.
Demandante: Secretaria Municipal de Cidadania e Desenvolvimento Social Rua Paraná, 374 – Centro. Tel.: (12) 3834-3516

EIXO TECNOLÓGICO: Ambiente e Saúde / Cuidador de Idosos
Cuida da higiene, conforto e alimentação do idoso, observando possíveis alterações no estado geral. Zela pela integridade física do idoso, presta primeiros socorros e promove atividades de entretenimento.
Escolaridade: Ensino Fundamental Completo.
Demandante: Secretaria Municipal de Cidadania e Desenvolvimento Social Rua Paraná, 374 – Centro. Tel.: (12) 3834-3516

EIXO TECNOLÓGICO: Produção Cultural e Design / Operador de Áudio
Realiza edições e mixagem de áudio, utilizando softwares e equipamentos digitais e analógicos, para atender a diferentes tipos de eventos, tais como teatro, cinema, publicidade, televisão, danças, festas populares, ou eventos correlatos, de acordo com as exigências estéticas, culturais e históricas do projeto.
Escolaridade: Ensino Médio Completo.
Demandante: Fundação de Arte e Cultura de Ubatuba – FUNDART
Praça Nóbrega, 54 - Centro. Tel.: (12) 3833-7000 l 3833-7001

Ensaio Tropixel

Enviado por efeefe, ter, 03/11/2014 - 22:43

Com o objetivo de continuar e aprofundar as colaborações que surgiram a partir da realização do festival Tropixel em outubro passado, estamos elaborando uma programação mais focada e em pequena escala. São os Ensaios Tropixel, dedicados a desenvolver ideias e concretizá-las. A primeira edição acontece no fim de semana de 5 e 6 de abril, aqui em Ubatuba, e será realizada em parceria com o Labmovel. Saiba mais sobre o Ensaio Tropixel #1 e participe!

http://tropixel.ubalab.org/ensaio/abril14
 

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